+
❝Eu me escondi embaixo da cama, mãe, igualzinho ao meu tempo de criança. Peguei o cobertor mais grosso e me fui, no escuro e sob medo, encarar os monstros que me aguardavam. Era de se esperar que eu nunca mais fosse sair dali e acabasse engolida por todos eles, os meus olhos não denotavam muita força. Depois de muito tempo, voltei.
Mãe, você lembra quando eu me sentava no canto do quarto até alguém me pegar no colo e não me deixar dormir a sós? Os monstros me lembraram disso, da minha fragilidade desde o nascimento, das cicatrizes físicas e emocionais que estou despejando no mundo. Eu sou cicatrizes, mãe, e saí da minha guerra com muitas outras. Orgulhe-se: eu sobrevivi. Encarar é muito mais mito do que realidade. Saio com muitos traumas para serem tratados naquela salinha pequena onde me medicam coisas para dormir e dizem que preciso falar e escrever mais, porém, saio ciente de mim, da minha força. Saio com a certeza de que os monstros nunca são maiores do que eu.
Estou metade viva agora, mãe. Não chore, por favor, nem tudo está perdido. Estou metade viva justamente para me poupar e retornar a ser inteira como antes, a sua menina calada e de olhos escuros e sempre dispersos. Estou viva, mãe, estou chorando por ter sobrevivido aos monstros que me conheciam tão bem. Como a desgraça nos conhece, não é?
Enquanto você prepara a sobremesa para a janta, eu estou trocando minhas roupas rasgadas e ajeitando meus curativos. Tudo para você ver que cresci, sobrevivi. Não chore, mãe, eu sempre vou sumir e voltar mais forte. Eu sempre vou voltar precisando da sua cama para aliviar os meus pesadelos. Olhe bem para mim: eu estou me conhecendo, e talvez você não vá gostar tanto assim de mim.
Acalme-se, mãe… Eu ainda atenderei os seus telefonemas tristes. Eu ainda serei a sua cria insensata.
+
❝Também tive uma caixinha de bailarina como muitas crianças. A perna bem esticada, a música suave, aquele mecanismo que eu não compreendia bem ainda. Nunca quis, porém, dançar como ela. Há coisas que ficam num patamar tão, mas tão elevado, que me distancio, vejo de longe e nada mais: não é para mim. Bailarinas tem postura, rigidez, vitalidade: eu tenho o oposto da perfeição. Bailarinas tem os joelhos fortes, o equilíbrio nato, a cabeça erguida: eu perdi esse controle do meu corpo há muito tempo. E o principal: bailarinas sentem a dor sorrindo - espetacular. Desde sempre eu soube porque não seria como a bailarina dançante no meu quarto.
Meu corpo é fraco e cambaleia, minhas costas pesam e a minha cabeça vive procurando o chão, eu não sei andar em linha reta, eu não sei me manter muito tempo na mesma posição. Eu não sei mais sorrir à multidão.
De bailarina, talvez, apenas a vida andarilha e solitária, bem como a moça da caixinha. Bem como o destino me traçou.
+
❝Pensei em todas as coisas que havia superado. Quis muito que você estivesse entre elas, mas está cada vez menos e cada vez mais dentro de mim. Ouso dize que conquistou aqui um canto sombrio, onde amo e odeio simultaneamente. Ouso pensar que será para sempre assim.
Mas amantes são tão definitivos quanto a vida… E tão exagerados quanto o amor.
+
❝Saudade daquelas que se engole, mas não se vomita.
+
❝Nunca vou largar nas tuas mãos a certeza do que eu sinto.
+
❝Sou eu quem tem medo de voltar atrás mais uma vez e sucumbir à falta, ao desejo de ouvir ao menos alguma palavra que acalme o coração. Sou eu quem foge por não querer cair no ridículo de viver se repetindo e acabar sendo uma daquelas pessoas que não vai e nem fica, simplesmente para no tempo por quem já foi. Sou eu quem vive a dor da ilusão que a própria cabeça cria e não se mata com um tiro certeiro. Sou eu quem quer pedir, contar, abraçar, tomar para si, mas sou eu igualmente quem precisa de tudo de volta, inclusive de mim. Sou eu quem queria poder te falar: as minhas palavras são tuas; a falta delas também.
+
❝Por que eu faço isso comigo? Jogo sujo, desisto, abandono, saboto, deixo pelos cantos… Por que eu ainda não aprendi a me dar mão?
+
❝Esses carinhos que dou, também venho precisando receber - urgentemente.
+
❝Sim, sou mulher mesmo, meu amor; você já deveria ter percebido que vou embora querendo ficar.
— Camila Costa. - trechos de nós.